Bruno Oliveira

Crítica: O Anjo Exterminador


(Essa reportagem foi publicada na primeira edição da Revista TV Coiote, em julho de 2017)

Diretor e roteirista: Luis Buñuel

Ano: 1962 

País: México

Duração:  95 minutos (1h35min)

Sinopse oficial do filme: 

Neste filme, com influências do surrealismo, Buñuel despe a sociedade aristocrata, em que ricos personagens se veem presos numa das salas de uma mansão após um jantar formal. Não há nada físico que os impeça de sair, porém algo os faz refém de portas e grades imaginárias. Com o decorrer dos dias, as convenções sociais vão caindo, as barreiras imaginárias permanecem, e as máscaras desprendem-se de cada personagem, aflorando os mais primitivos instintos: o improviso de um banheiro, desejos sexuais reprimidos, a fome, a sede e até mesmo a morte.

CRÔNICA 

Entender O Anjo Exterminador não é tarefa fácil. Lendo várias análises, percebi que cada uma interpretava a obra de maneira bem distinta. A película dá conta de tantas metáforas e fantasias diferentes, que fica difícil entender qual é a real mensagem que Bunuel deseja passar. O sentimento ao assistir o filme é quase unânime, pode-se dizer que equivale a uma mistura entre dúvidas e satisfação. As metáforas muito bem construídas, o humor ácido e a curiosidade pelo desfecho fazem com que a obra se mantenha bem distante do tédio e, mais do que isso, seja vista até pelos espectadores mais avessos ao surrealismo como uma verdadeira obra prima. Por outro lado, ficam muitas perguntas que impossibilitam seguir para outra tarefa logo após assistir à obra, que traz a necessidade de pelo menos alguns minutos de reflexão. O filme trata de diversas ideias diferente, seguem algumas das principais: crítica à moral burguesa, barreiras imateriais, reação a uma situação de extrema fome e necessidade e religião

Primeiramente, existe uma situação importantíssima pra entender a obra: ela foca em uma análise da reação de todos os humanos à situação apresentada ou da reação especificamente de burgueses àquela situação? Ou melhor, aquela situação metaforizada pode acontecer com qualquer um ou só com a sociedade burguesa? Em minha visão, o enfoque é nos burgueses, algo que fica evidenciado nas primeiras cenas da obra, em que absolutamente todos os empregados sentem uma vontade inesperada de ir para casa, e começam a ir embora deliberadamente da mansão, mesmo sabendo que essa atitude resultaria na perda do emprego. Se Buñuel quisesse destinar a reflexão à natureza humana somente, e não às construções sociais da sociedade burguesa, não “descartaria” os serventes dessa prisão psicológica. Já a ideia das barreiras imateriais é a principal entre o emaranhado de simbolismos que compõe a obra, afinal, por que ninguém toma a real iniciativa de sair da sala? Por que ninguém decide entrar? Falta de vontade real e medo de sair da zona de conforto são boas hipóteses. Talvez um dos grandes temas tratados pela obra seja o da vontade, da ideia de querer algo, de por que querer, e de como o medo – mesmo que inconsciente – pode interferir nas atitudes perante as vontades. O medo seria então esse bloqueio imaterial? 

O desespero originário da fome e do não suprimento das necessidades básicas traz à tona a ideia de manter as aparências. Todas as etiquetas mantidas pelos personagens no início da obra são abandonadas, a luta pela sobrevivência vira o grande objetivo de todos. Ocorre a animalização dos homens. Buñuel costumava dizer que “a necessidade não tem a mesma pureza do acaso”. De início, tive dificuldade de ligar a obra diretamente à emblemática frase de seu diretor, afinal, é justamente na necessidade que se identifica a pureza (transparência) dos convidados. As máscaras caem e todos evidenciam o que estava escondido. Mas, refletindo mais, cheguei à seguinte conclusão: seria a pureza, nesse caso, justamente o modo fantasioso, vazio, de viver daqueles aristocratas. Ao se verem em uma situação de necessidade, perdem essa pureza e passam a agir como animais. Seriam elas, então, tão pobres interiormente a ponto de toda a superficialidade que elas manifestavam ser o reflexo mais puro de seu interior? Posso estar enganado, como disse, não existem consensos com relação a esse filme. A proposta é justamente que o leitor utilize essa crítica para ampliar seu horizonte interpretativo.

Vamos tratar agora sobre a questão religiosa. Buñuel era ateu militante, e suas críticas à igreja eram ferrenhas, mas, em minha visão, o tema religioso não é a razão principal da obra. A religião é uma entre tantas obrigações sociais a serem cumpridas pela aristocracia, não sendo ela em si o enfoque da crítica. Mesmo na cena final, onde as pessoas votam a ficar presas, dessa vez na igreja, a função da mesma, em minha visão, equivale à função da casa durante o restante da obra, sendo o local que abriga os aristocratas, ou, indo mais longe, “uma zona de conforto”.

Para finalizar, assista ao filme e crie suas próprias reflexões.



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