Bruno Oliveira

Crítica: Os Pássaros e o medo do desconhecido


(Essa crítica de cinema foi publicada na primeira edição da Revista TV Coiote, em julho de 2017)

Duração: 119 minutos (1h59)

Roteiro:  Evan Hunter

Sinopse: Melanie Daniels (Tippi Hedren) é uma bela e rica socialite que sempre vai atrás do que quer. Um dia ela conhece o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) em um pet shop e fica interessada nele. Após o encontro, ela decide procurá-lo em sua cidade. Ela dirige por uma hora até a pacata cidade de Bodega Bay, na Califórnia, onde Mitch costuma passar os finais de semana. Entretanto, Melanie só não sabia que iria vivenciar algo assustador: milhares de pássaros se instalaram na localidade e começam a atacar as pessoas.

Crítica (contém spoiller):

 Lançado em 1963, o filme norte-americano Os Pássaros, do diretor conhecido como “o metre do suspense” Alfred Hitchcock, chegou aos cinemas pouco depois do maior sucesso da história do diretor: Psicose. A responsabilidade era grande, mas o mestre do suspense deu conta do recado. Os Pássaros é tido hoje pela crítica com uma das melhores obras do mestre de suspense. Hitchcock percebeu que o medo do desconhecido é o mais horripilante de todos, e é justamente ele que permeia toda a obra. Os Pássaros não se trata de um filme sobre como vários passarinhos se rebelaram contra a humanidade. O tema central do filme é sobre como um grupo de pessoas reagiria a um ataque mortal de passarinhos. Tinha tudo para dar errado, um único deslize podia fazer com que o roteiro do filme criasse um filme chato de mais de duas horas de duração, mas as atuações sublimes, a fotografia, a qualidade técnica (surpreendente para a época em que o filme foi rodado) e a trilha sonora fizeram com que a obra realmente criasse medo e mais que isso: incômodo. A ideia de utilizar meros sons de pássaros como trilha sonora fez toda a diferença, utilizar músicas podia distrair a plateia e amenizar o medo, os sons dos pássaros só tornavam tudo mais assombroso.

Os pássaros não é só um terror, mas uma alegoria. Os ataques possibilitam que as pessoas transpareçam coisas que ficam escondidas durante o cotidiano comum (em situação semelhante à representada por Luis Buñuel no filme O Anjo Exterminador – se você não assistiu, não perca tempo e assista agora! Ele será tema da próxima edição dessa publicação). Os ataques possibilitam a vazão de todos os temores, angústias existenciais e preconceitos dos personagens. Os ataques não fazem apenas os moradores de Bodega Bay temerem por suas vidas, mas fazem com que eles vejam e transpareçam suas próprias falhas.

Hitchcock falava que o filme tinha a ver com o “perigo da complacência”, quando tomamos tudo em nossa vida como garantido -  liberdade, rotina, familiares e amigos -  e como essas coisas poderiam ser tomadas de nós de uma hora para outra.

Infelizmente, o grande público costuma se chatear ao ver o filme. Acredito que isso se dê principalmente por dois fatores: a falta de “solução” no fim do filme (que eu por outro lado considero um fator importante para a qualidade dele, já que para tentar explicar o ataque dos pássaros seria necessária uma grande gambiarra lógica) e a grande preocupação em tentar achar uma explicação para os fatos absurdos, quando a ideia do filme é, justamente, manter essa explicação no campo do desconhecido.

Se você não assistiu à obra, vale a pena conferir, caso tenha visto e não gostado, dê mais uma chance.



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