Bruno Oliveira

Argentinos protestam por demora em investigação de ataque a centro israelita


- Às 9h53 da manhã desta quarta-feira (18), horário em que, há 24 anos, ocorreu a explosão da bomba que matou 86 pessoas, feriu mais de 300 e destruiu a sede da Amia (Associação Mutual Israelita Argentina), teve início um ato em memória das vítimas.
Embora o tom da cerimônia, que contou com oradores da comunidade, religiosos e políticos tenha sido solene, a celebração teve também tom de protesto.
Afinal, o crime até hoje não foi resolvido, diversas linhas de investigação foram seguidas, a cena do crime foi alterada logo no início e várias pessoas envolvidas no seguimento do caso ou foram desligadas por corrupção (como o juiz que tentou "comprar" o depoimento de um suspeito) ou morreram de forma misteriosa, como o promotor Alberto Nisman, em 2015.
O atentado ocorreu em 18 de julho de 1994, apenas dois anos depois da explosão da embaixada de Israel, outro crime sem desfecho oficial, que deixou 22 mortos e mais de 240 feridos.
O ato desta quarta-feira (18) ocorreu diante da atual sede da Amia na rua Pasteur, no bairro de Balvanera, em Buenos Aires. Era grande a quantidade de pessoas que se exprimiram na rua estreita, numa manhã de baixa temperatura na cidade (10 graus no momento em que a cerimônia começou).
Nos últimos dias, a associação já havia distribuído cartazes em vários muros da cidade com os dizeres: "Em tempos de impunidade, fazer memória é exigir Justiça".
Além dos discursos, o ato teve a leitura dos nomes de todas as vítimas, comandado pelo jornalista Luis Novaresio. Também se acendeu uma vela em memória do promotor Nisman, que investigou o caso nos últimos anos de sua vida e cuja morte ainda é rodeada de mistérios.
O presidente Mauricio Macri não compareceu e preferiu se reunir ontem com membros atuais da Amia e familiares de sobreviventes. Por parte do governo, estavam a vice-presidente, Gabriela Michetti, e o chefe de gabinete, Marcos Peña.
Ambos os casos, da explosão da Amia, e a morte de Nisman, seguem sendo investigados. Apesar de ter sido uma promessa em seu discurso de tomada de posse, em 2015, dar mais celeridade a ambas investigações, Macri ainda não obteve as respostas desejadas pela comunidade. A Justiça avançou, mas pouco.
No caso do atentado, há seis pessoas acusadas. Em outubro de 2006, o promotor Alberto Nisman declarou formalmente o Irã como autor intelectual do atentado e o Hezbolá de tê-lo levado a cabo. Foram emitidas ordens de capturas à Interpol a cinco cidadãos iranianos e a um libanês, que se encontram fora do país. Os iranianos são o ex-ministro da Defesa Ahmad Vahidi, o ex-ministro da Informação Alí Fallahijan, o ex-assessor de governo Mohsen Rezai, o ex-adido cultural da embaixada do Irã em Buenos Aires Moshen Rabbani e o diplomata Ahmad Reza Ashgari. O libanês chama-se Imad Fayez, e seria integrante do Hizbolá.
Sobre os atos propriamente ditos, sabe-se que uma caminhoneta alugada de um terceiro foi usada para levar a bomba até a porta do local, explodindo logo depois. O motorista-terrorista morreu também.
Não houve avanços com relação às causas e ao porquê da escolha do alvo do atentado. Quanto à isso há várias especulações, algumas delas envolvendo os vínculos do então presidente argentino, Carlos Menem, com o governo iraniano.


Já a morte do promotor Alberto Nisman, que levou adiante os últimos anos de investigação, continua sendo também um mistério. Embora a Justiça tenha recentemente declarado que descartou a hipótese de suicídio -sustentada pelos investigadores a princípio- ainda não se esclareceu quem teria executado o crime nem quem o teria ordenado.
Nisman morreu em janeiro de 2015, no fim de semana anterior (há imprecisões quanto a hora e o dia, se foi no sábado ou no domingo) ao dia em que apresentaria diante do Congresso uma denúncia de que a então presidente Cristina Kirchner teria encoberto e colocado obstáculos para que se esclarecesse o que de fato ocorreu na Amia.
A tese de Nisman era que Cristina o estava fazendo para poder levar adiante um acordo comercial com o Irã, e teria a intenção de retirar as acusações contra os funcionários considerados comprometidos. Nisman também estava contra o fato de a presidente ter sugerido que uma comissão internacional assumisse a investigação, esvaziando o trabalho da Justiça e dos serviços de inteligência argentinos.
A denúncia foi apresentada depois da morte de Nisman, mas o juiz federal Daniel Rafecas a considerou sem evidências suficientes e foi descartada.


Os primeiros peritos que analisaram o caso apostaram mais na teoria de suicídio ou até de um suicídio induzido por ameaças à vida das filhas do promotor, uma vez que elas estavam fora do país. A tese do suicídio predominou num primeiro momento porque não se encontrou nas câmaras de segurança do prédio a entrada de nenhum suspeito, a porta do apartamento estava trancada e não havia evidências de que uma pessoa houvesse estado ali no momento em que foi morto.
No fim do ano passado, porém, um novo laudo realizado pela Gendarmeria, concluiu que Nisman foi assassinado. A Justiça acabou acolhendo essa versão, mas até agora não há ninguém preso. O único apontado como possível participante da trama é Diego Lagomarsino, que havia entregado a arma ao promotor, pois dizia que ele teria dito estar sofrendo ameaças.



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